sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Dilma corre risco na politica.

A instabilidade política começa a ser uma marca deste primeiro ano do governo Dilma Rousseff. O efeito mais danoso é paralisar a ação administrativa ou deixá-la em ritmo de tartaruga.

Dilma fez trocas em quatro ministérios importantes em menos de oito meses de governo. É uma performance ruim. A cada troca de ministro, o presidente de plantão sempre gasta uma energia tremenda para tratar do assunto. Precisa consultar aliados, driblar lobbies por candidatos à vaga e tourear partidos querendo ocupar mais espaço.

Para um primeiro ano de governo, no qual a regra é o presidente ter um cacife político que lhe dá certo sossego na relação com aliados e o Congresso, a gestão Dilma tem atravessado fortes turbulências.

Apesar de ter ficado bem na foto perante a opinião pública com a faxina no Ministério dos Transportes, a extensão da crise com o PR pode corroer esse ganho de imagem. Afinal, já foram mais de 20 demitidos no Ministério dos Transportes. Aliados começam a indagar como era possível a permanência de tanta gente suspeita em área tão importante desde o tempo em que Dilma era a gerente do governo.

Mais: a crise com o PR deixou como herança um Senado mais hostil à presidente.

A articulação política vai mal. O governo quase deixou passar uma CPI. O PMDB está para lá de insatisfeito com o tratamento que recebe da presidente. Sobram problemas numa área nevrálgica.

Lula cometeu o mesmo erro no primeiro ano do seu primeiro mandato. Esnobou os políticos. Evitou articulações necessárias. Deixou acuado o denunciante do mensalão. Dilma vive uma má fase política numa hora em que as nuvens da economia andam carregadas. Não parece uma boa combinação.

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Autoridade questionada

A decisão de demitir Nelson Jobim estava tomada desde a entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues na qual o ministro da Defesa admitiu ter votado em José Serra, tucano que foi adversário de Dilma Rousseff na eleição presidencial do ano passado.

Como o motivo da demissão nada tinha nada a ver com acusações de corrupção ou de inépcia ministerial, Dilma respirou fundo e seguiu os conselhos para esperar um momento mais tranquilo para trocar o ministro da Defesa. Já havia sondado Celso Amorim.

O desejo era tirar Jobim numa reforma ministerial planejada para mais adiante, como a virada do ano. O ambiente em Brasília anda algo elétrico, cheio de emoções para um início de mandato. Fazia sentido aguardar.

No entanto, as novas bombas de Jobim não poderiam ficar sem uma resposta firme.

Ao chamar de "fraquinha" a ministra Ideli Salvatti e dizer que a colega Gleisi Hoffmann (Casa Civil) não conhecia Brasília, Jobim atacou a autoridade da própria Dilma, que acabara de guindar as duas as respectivos postos. Outras declarações recentes também desestabilizaram Dilma, questionando a sua autoridade.

A avaliação sobre Gleisi é irrelevante, como disse a própria ministra. Dilma nunca foi doutora nos códigos de Brasília. Mesmo assim, ocupou com competência dois ministérios no governo Lula: a Casa Civil e as Minas e Energia. Gleisi tem currículo para a tarefa.

A opinião de Jobim sobre Ideli é compartilhada por muitas petistas, que dizem o mesmo desde que não tenham os nomes publicados. A atual instabilidade política parece dar alguma razão a Jobim.

Mas o que explica os ataques de um ministro ao próprio governo? Seus colegas no PMDB dizem o seguinte: ele vinha se sentindo incomodado com seu pouco espaço no centro das decisões da gestão Dilma e com a forma incisiva como a chefe se relaciona com seus auxiliares.

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Teste militar

São naturais os lamúrios das Forças Armadas à indicação de Celso Amorim para ministro da Defesa. A cúpula do Exército, Marinha e Aeronáutica ainda resiste a obedecer a um comando civil. Isso é uma herança da falta de acerto de contas com 64. Existem bolsões militares que se comportam como viúvas do golpe militar, um dos episódios mais tristes de nossa história.

Numa democracia, o poder militar deve bater continência para o poder civil. Nelson Jobim foi o único ministro da Defesa que os comandantes militares realmente respeitaram. Amorim tem o desafio de exercer sua autoridade. Um bom começo deverá ser a disposição de Amorim de começar a retirar as tropas brasileiras do Haiti, tese que agrada aos militares.

Do ponto de vista simbólico, é um avanço que uma presidente que foi presa política da ditadura tenha nomeado um diplomata de esquerda para comandar a Defesa. É sinal de que a criação da Comissão da Verdade sobre a ditadura continua como prioridade do atual governo no Congresso.


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