Nem programas sociais, nem obras grandiosas. Os oito primeiros meses de governo de Dilma Rousseff foram marcados por uma intensa crise política, alimentada por uma enxurrada de denúncias de corrupção. A demissão de ministros e servidores transformou a presidente mais em uma faxineira oficial do que em uma administradora dos problemas do país. Ciente de que precisava mostrar a seus eleitores a que veio, a presidente mudou. Pelo menos é o que ela procura demonstrar.
Para abafar a crise e acalmar os ânimos, Dilma tentou deixar de lado a imagem de "gerentona" de um gestão centralizadora e pautada pela falta de diálogo. Passou a reunir-se mais com aliados, resgatou o discurso de posse, reiterando que tem como prioridade o combate à miséria. E colocou o pé na estrada.
Na última semana, a presidente fez um périplo por quatro estados. Deu entrevista a rádios locais, tirou fotos e forçou um sorriso popular. Mas o tiro pode ter saído pela culatra. Naturalmente mais discreta que seu antecessor, ela evitou multidões e discursos em praça pública e apostou em inaugurações sem grande impacto e apelo social. Se a intenção era parecer estar mais perto da população, por enquanto não deu certo. O povo continua achando que Dilma é melhor na faxina política.
Autonomia - Dilma já começou seu governo com um grande desafio: sair da sombra de Lula. Para provar que tem autonomia, foi preciso demonstrar que toma as próprias decisões e ser firme no combate à corrupção - ao contrário de Lula. A atitude arrancou elogios da imprensa internacional e Dilma foi apontada pela revista Forbes como a terceira mulher mais poderosa do mundo. No Congresso Nacional o impacto foi inverso. Enquanto seus aliados se rebelavam contra a repressão aos partidos da base com cargos no governo, parlamentares antes dissidentes apoiaram a faxina em público.
A sucessão de escândalos acabou ganhando tal proporção que, para a opinião pública, a impressão que ficou foi a de que o governo está paralisado. Em resposta, Dilma interrompeu a faxina. E, ao mesmo tempo em que buscou aproximação com os aliados raivosos, apostou em uma agenda positiva.
Em uma semana, a presidente esteve em Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Inaugurou empresa, faculdade e barragem, visitou feira de livros e de agropecuária. Fez discursos para poucos, não chegou a ter muito contato com os moradores. Mas deu longas entrevistas a rádios locais, bem diferente do que faz quando está em Brasília e raramente fala com a imprensa nacional. Em meio à peregrinação pelo país, o governo anunciou medidas na área econômica, entre elas o reajuste do salário mínimo para 619 reais em 2012 e a redução da taxa de juros.
Mas os únicos que parecem ter aprovado a nova estratégia de Dilma foram seus aliados políticos. "Ela interrompeu o desmonte da máquina corrupta, contemporizou com a turma patrimonialista do Congresso e todos ficaram aliviados e calminhos”, ironiza o líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO). "Agora que ela cedeu a essa rotina totalmente improdutiva, vai participar de lançamento até de pedra fundamental, como fazia o Lula para simular que estava fazendo alguma coisa quando o objetivo real era apenas o populismo".
O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que chegou a participar do grupo que subiu à tribuna do Senado para defender a faxina presidencial, demonstra sinais de arrependimento. "Parece que foi tudo um jogo de cena, um caminho que ela buscou para se diferenciar de Lula. Aí quando viu que isso poderia provocar um desenlace ou uma ferida maior com ele e sua base, recuou", lamenta. "Ela ainda não achou um norte para o governo, está feito beija-flor, tocando em todas as coisas. Se ela for buscar outro caminho que não seja o dela e percorrer a trilha de Lula, está liquidada".
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