Nitroglicerina pura. Assim são definidos os depoimentos prestados ao Ministério Público Estadual por Adiel Fernandes Luna, que durante 27 anos serviu à família Novelino, mantendo estreitos laços com o ex-deputado estadual Alessandro Novelino (PSC), também empresário e recentemente falecido em desastre aéreo. As denúncias que ele fez, inclusive documentais, valendo-se da delação premiada, e que comprometiam Alessandro Novelino, serão arquivadas, diante da morte do parlamentar. Mas perduram válidas no que se referem às empresas da família Novelino, cuja prosperidade é habitualmente associada a ilícitos. Um desses ilícitos – a agiotagem – foi publica e impunemente assumido por Alessandro Novelino, em entrevista a O Liberal, a quando do assassinato de dois dos seus irmão, Uraquitã e Ubiraci, em 25 de abril de 2007, a mando empresário João Batista Ferreira Bastos, conhecido como Chico Ferreira, em um crime relacionado a uma dívida com os Novelino que chegaria, com os juros, a R$ 4 milhões. A súbita ascensão de Chico Ferreira sempre esteve associada a práticas ilícitas, quase sempre incluindo a pilhagem aos cofres públicos. Condenado pelo assassinato deUraquitã e Ubiraci Novelino, juntamente com o jornalista Luiz Araújo e o ex-policial Sebastião Cardias, Chico Ferreira, recorde-se, foi preso anteriormente pela Polícia Federal, em novembro de 2006, na esteira da Operação Rêmora, juntamente com Marcelo Gabriel, filho do ex-governador Almir Gabriel. Chico Ferreira e Marcelo Gabriel foram presos sob a acusação de formação de quadrilha, fraudes em licitações, corrupção passiva, falsidade ideológica e sonegação previdenciária, juntamente com empresários, servidores públicos, contadores e funcionários das empresas ligadas ao esquema.
Adiel Fernandes Luna chegou a ser entrevistado pela repórter Jalilia Messias, da TV Liberal, afiliada da TV Globo no Pará, em matéria na qual também foram ouvidos os promotores de Justiça Arnaldo Azevedo e Nelson Medrado, do Ministério Público Estadual. A reportagem – feita anteriormente a morte de Alessandro Novelino – não foi ao ar e até hoje a emissora e a jornalista não ofereceram qualquer explicação a nenhum dos entrevistados, o que irritou profundamente o promotor de Justiça Arnaldo Azevedo. Além dos depoimentos prestados, Adiel afirma ter fornecido ao promotor de Justiça Arnaldo Azevedo os documentos que disponibilizava sobre as falcatruas das quais participou, a serviço dos Novelino. No início do ano, antes da abortada reportagem da Jalilia Messias, em declaração ao Amazônia Jornal - o tablóide popular do grupo de comunicação da família Maiorana, que ainda inclui a TV Liberal e O Liberal, o segundo jornal de maior vendagem no Pará -, o promotor de Justiça Arnaldo Azevedo antecipou, em passant, as denúncias de Adiel, sem, porém, obter a repercussão na qual obviamente apostou, ao suscitar um tema naturalmente explosivo e de óbvio interesse jornalístico.
NOVELINO – A motivação do denunciante
Para consumo externo, a motivação de Adiel Fernandes de Luna, ao escancarar os subterrâneos das falcatruas das quais acusa os Novelino, seriam direitos trabalhistas solenemente desconhecidos pelos ex-patrões. Ele declara ter recorrido em vão à Justiça do Trabalho, que “estranhamente”, na sua própria definição, não lhe deu ganho de causa. Quem já teve acesso ao processo corrobora Adiel e qualifica como “inusitada” a decisão do TRT, o Tribunal Regional do Trabalho.
Ao Blog do Barata – ao qual recorreu recentemente, no declarado empenho de tornar suas denúncias do domínio público - Adiel Fernandes de Luna reiterou essa motivação, inclusive a quando da morte de Alessandro Novelino. “A vida nos prega muitas peças, e a morte prematura do Alessandro foi uma delas. Parece hipocrisia, mas não é. Eu senti muito sua morte, pois desde garoto, quando ele veio aqui, e ficou na minha casa, em 1983, nós já tínhamos amizade, assim como com toda a família”, declarou em e-mail a mim enviado. “Meu caso e problema é puramente de ordem trabalhista, pois, apesar dos longos 27 anos de dedicação, não tive direitos básicos e triviais de qualquer trabalhador reconhecido”, reiterou no e-mail. “Dediquei minha juventude e virilidade aos serviços da familia Novelino. A todos sem exceção: Ubiraci, Kitan, Birinha, Alessandro, Iaponira e ao Bira pai”, acrescentou.
NOVELINO – Subterrâneos das falcatruas
Segundo fonte do próprio Ministério Público Estadual, se eventualmente carece de provas documentais, o relato de Adiel Fernandes de Luna não embute contradições e revela-se coerente, evidenciando, pelos próprios pormenores, o conhecimento de causa de quem assumidamente participou das falcatruas agora denunciadas. O problema na interlocução com Adiel, adverte a mesma fonte do MPE, é a sua compulsão em manipular o interlocutor. “Se você não ficar atento, ele relata apenas o que lhe convém, sem oferecer uma contrapartida a quem lhe dá voz”, assinala a fonte ouvida pelo blog, sem, contudo, duvidar da veracidade das denúncias. “O relato que ele faz soa verossímil”, constata.
Não convém, portanto, tomar como blefe o conhecimento de causa enfatizado por Adiel Fernandes de Luna quando revela os subterrâneos das falcatruas relacionadas aos negócios da família Novelino. “Em todos os empreendimentos comerciais e agronegócios (da família Novelino) eu trabalhei. Não é à toa que conheço todos os seus segredos”, sublinha Adiel, em um dos e-mails enviados ao Blog do Barata. Nem mesmo o temor de vir a ser morto como queima de arquivo, por quebrar a lei do silêncio que blinda os bandidos que trafegam no submundo do crime, parece detê-lo. Ele mesmo se encarrega de recordar que as denúncias de caráter penal serão arquivadas, diante da morte de Alessandro Novelino, mas perduram, à espera de apuração, as irregularidades que passam pelas empresas da família do ex-deputado. “Esse é o caso, por exemplo, do uso de laranjas, como eu, Luiz Américo Teixeira de Souza, José Emerson Vieira de Andrade, Vera Lúcia Evangelista, Antonio Souza dos Anjos e muitos outros”, exemplifica.
No elenco de falcatruas que denuncia, Adiel cita os contratos de constituição e de alterações da empresa Albuquerque & Albuquerque distribuidora de derivados de petróleo. “Os contratos contêm falsificações de assinaturas, inclusive feitas por mim, a mando do deputado, como do sócio que nunca soube que era sócio, Luiz Américo, ou da mãe, Maria do Socorro”, revela. “São crimes de falsificação de documentos públicos, bem como de falsidade ideológica, que precisam ser investigados e a empresa punida”, declara. “Com a perícia grafotécnica das assinaturas será possível constatar que eu realmente fiz as assinaturas e cairá por terra o argumento, utilizado no TRT, de que eu nunca trabalhei para ele (Alessandro Novelino)”, observa Adiel, recordando que essas denúncias foram formalizadas no MPE, em depoimentos prestados ao promotor de Justiça Arnaldo Azevedo, gravados em DVDs.
“Para poder ter meus direitos trabalhistas reconhecidos vou até o fim, não importando as conseqüências”, assegurou Adiel ao blog. “O protagonista saiu de cena, mas a história não mudou”, arrematou.
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